Medicamentos utilizados para diabetes tipo 2 e controle do peso, conhecidos popularmente como canetas emagrecedoras, voltaram ao centro das discussões após notificações de problemas graves de visão em pessoas que utilizavam medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1.
No Brasil, a Anvisa acompanha notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NOIA-NA) em usuários de medicamentos como semaglutida e tirzepatida. A existência de uma notificação, entretanto, não significa que o medicamento tenha sido comprovadamente responsável pelo problema. A relação causal ainda está sendo investigada. (Termômetro da Política)
O que é a neuropatia óptica isquêmica?
A NOIA pode ser entendida, de forma simplificada, como uma espécie de “infarto” da parte anterior do nervo óptico.
O nervo óptico funciona como um cabo que transmite as informações captadas pela retina até o cérebro.
Quando o fornecimento de sangue para essa região diminui de maneira significativa, as células nervosas podem sofrer falta de oxigênio e morrer.
Isso pode provocar:
perda súbita da visão;
redução da acuidade visual;
perda de parte do campo visual;
geralmente ausência de dor;
comprometimento de um dos olhos;
em alguns casos, perda visual permanente.
Mas como uma caneta emagrecedora poderia estar relacionada a esse problema?
Essa é justamente uma das questões que a ciência ainda está tentando esclarecer.
Não existe atualmente um mecanismo único comprovado. Algumas hipóteses, porém, merecem atenção.
1. Alteração da circulação do nervo óptico
O nervo óptico necessita de um fluxo sanguíneo adequado.
Se a perfusão cair em uma pessoa que já tenha uma circulação comprometida ou uma anatomia do nervo óptico particularmente vulnerável, teoricamente pode ocorrer isquemia.
Essa é a hipótese central da NOIA.
2. Queda da pressão arterial e redução da perfusão
Medicamentos GLP-1 podem promover perda de peso e alterações metabólicas importantes.
Em determinadas circunstâncias, principalmente quando existe desidratação, uso concomitante de medicamentos anti-hipertensivos ou outros fatores, uma redução excessiva da pressão arterial poderia diminuir a pressão de perfusão do nervo óptico.
Isso não significa que a hipotensão provocada pelo medicamento seja uma causa comprovada de NOIA. É uma possibilidade fisiológica que precisa ser melhor estudada.
3. Desidratação
Náuseas, vômitos e redução importante da ingestão de alimentos e líquidos podem ocorrer durante tratamentos com medicamentos GLP-1.
Uma desidratação importante pode reduzir o volume circulante e, consequentemente, interferir na perfusão de determinados tecidos.
Em uma pessoa já predisposta à NOIA, esse fator poderia teoricamente contribuir para o problema.
4. Alterações rápidas da glicemia
Existe ainda outro mecanismo que precisa ser separado da NOIA.
Em pessoas com diabetes e retinopatia diabética, uma redução muito rápida da glicemia e da hemoglobina glicada pode estar associada a uma piora transitória da retinopatia diabética.
Portanto, existem pelo menos dois fenômenos oculares diferentes que estão sendo discutidos:
NOIA → problema principalmente relacionado ao nervo óptico.
Retinopatia diabética → problema relacionado aos vasos sanguíneos e à retina.
Uma revisão publicada em 2026 observou que a piora da retinopatia parece estar mais relacionada à rapidez e à magnitude da redução da HbA1c do que a uma toxicidade direta do medicamento sobre a retina. (PubMed)
5. Pessoas com diabetes podem apresentar maior vulnerabilidade
Esse ponto é especialmente importante.
Diabetes, hipertensão, obesidade, apneia do sono e outras condições cardiovasculares já estão associadas a alterações vasculares e maior risco de problemas do nervo óptico.
Isso cria um problema para os pesquisadores:
a perda visual aconteceu por causa do medicamento ou porque a pessoa já apresentava vários fatores de risco?
Essa é uma das principais dificuldades para estabelecer uma relação de causa e efeito.
Uma revisão sistemática publicada em 2026 observou justamente essa possibilidade de confusão por indicação: pessoas que recebem semaglutida frequentemente apresentam diabetes, obesidade e doença cardiovascular, que por si só podem aumentar o risco de complicações. (PubMed)
O que dizem os estudos?
Os resultados ainda não são totalmente concordantes.
Uma meta-análise publicada em 2026 reuniu cinco estudos com mais de 1,5 milhão de pessoas e encontrou uma associação entre uso de semaglutida e maior risco de NOIA em comparação com pessoas que não utilizavam agonistas de GLP-1. Os próprios autores classificaram a certeza da evidência como baixa a moderada e destacaram a necessidade de novas pesquisas. (PubMed)
Por outro lado, uma revisão sistemática publicada anteriormente em 2026 encontrou resultados conflitantes entre grandes estudos observacionais e concluiu que os dados disponíveis ainda não demonstravam uma relação causal definitiva. (PubMed)
Portanto, a conclusão mais responsável neste momento é:
existe um sinal que merece investigação, mas ainda não está comprovado que as canetas emagrecedoras sejam a causa da neuropatia óptica em todos esses casos.
E a tirzepatida?
A tirzepatida também está sendo acompanhada dentro do cenário de farmacovigilância dos medicamentos GLP-1/GIP.
Entretanto, não é correto simplesmente transferir automaticamente os resultados encontrados com semaglutida para todos os medicamentos da classe.
Uma revisão de 2026 observou que os sinais relacionados à NOIA foram mais consistentes para a semaglutida subcutânea, enquanto os dados para tirzepatida e outros medicamentos ainda são mais limitados ou inconsistentes. (PubMed)
Existe diferença entre medicamento regular e produto clandestino?
Sim, e esse ponto merece atenção.
A Anvisa e a Polícia Federal também investigam produtos irregulares contendo agonistas de GLP-1. Foram identificados problemas relacionados à origem dos insumos, controle de qualidade, esterilidade, armazenamento e conservação de determinados produtos irregulares. (Serviços e Informações do Brasil)
Portanto, não se deve misturar automaticamente:
medicamento aprovado e utilizado conforme prescrição
com
produto falsificado, contrabandeado ou manipulado irregularmente.
Produtos de origem desconhecida podem apresentar riscos adicionais que não têm necessariamente relação com o princípio ativo aprovado.
Quais sintomas exigem atenção?
Uma alteração visual súbita nunca deve ser ignorada.
Procure atendimento médico rapidamente se ocorrer:
perda súbita da visão;
aparecimento repentino de uma área escura no campo visual;
perda de visão em um dos olhos;
redução importante e inesperada da acuidade visual;
alteração visual acompanhada de outros sintomas neurológicos.
A avaliação precoce é importante porque existem diversas causas possíveis de perda visual súbita, algumas delas emergenciais.
Então as pessoas devem parar as canetas?
A existência dessa investigação não significa que todas as pessoas que utilizam esses medicamentos devam interromper o tratamento por conta própria.
A decisão depende da indicação do medicamento, dos fatores de risco individuais, do histórico ocular e das condições de saúde de cada paciente.
Quem apresentar uma alteração visual súbita deve procurar atendimento médico imediatamente e informar todos os medicamentos utilizados.
Conclusão
A investigação sobre as canetas emagrecedoras e a perda de visão merece atenção, mas é importante evitar conclusões precipitadas.
O principal mecanismo estudado é a neuropatia óptica isquêmica, na qual ocorre comprometimento do suprimento sanguíneo do nervo óptico.
Entre os possíveis fatores envolvidos estão alterações na perfusão, pressão arterial, desidratação e características individuais do nervo óptico.
Em pessoas com diabetes, também é necessário considerar a possibilidade de alterações da retina associadas a uma redução muito rápida da glicemia.
A ciência ainda está tentando responder uma pergunta fundamental:
o medicamento é diretamente responsável pelo aumento do risco ou determinados pacientes que utilizam esses medicamentos já apresentam características que aumentam naturalmente o risco de perda visual?
Os estudos publicados em 2026 apresentam resultados diferentes. Por isso, novas pesquisas e o acompanhamento da farmacovigilância serão fundamentais para esclarecer essa relação.
Importante: este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica ou oftalmológica.
